Será que numa única vida cabem todos os projetos de um ficcionista? Esta foi a interpelação a que os três convidados (Nuno Júdice, Rui Zink e Pedro Moreira) tentaram responder, deixando apenas uma certeza: se tiverem apenas uma vida, escolhem sempre ser escritores.
Com a irreverência e humor refinado que são a imagem de marca de Rui Zink, aquele autor abriu a sessão, respondendo, ou pelo menos tentando, à pergunta de partida com a afirmação de que se considera "o Tó Zé Seguro da literatura portuguesa, ando sempre atrás do prejuízo". Referindo-se ao seu mais recente livro, A Metametamorfose e Outras Fermosas Morfoses, é o terceiro livro de uma trilogia que publica com o mesmo editor: o primeiro é virado para o futuro da Europa, em que Portugal é um parque temático para diversão dos europeus; o segundo é virado para o presente, onde o medo está instalado; e este terceiro funciona como um post scriptum aos anteriores, já que ali o personagem descobre que não tem capacidade de metamorfose.
Por seu lado, Nuno Júdice, focou a sua primeira intervenção na conversa na questão patrimonial da língua portuguesa. Respeitando a unidade europeia que é construída com base em diversas culturas, o património da língua deverá ser valorizado e respeitado por todos. Aliás, deu como exemplo o período pré-revolução do 25 de abril de 74 enquanto falta de respeito pela língua e pela criação literária através da censura. Lembrou também que existiam um sem número de autores que afirmavam não poder publicar os seus textos porque eram censurados e que os tinham arrumado em gavetas e que depois da revolução foram encontradas gavetas cheias de nada.
Pedro Moreira elucidou os presentes de que o seu novo livro, "Livro sem ninguém" não tem pessoas. Aquele autor gosta de ter o leitor dentro dos livros utilizando para tal objetos para contarem a história. Aliás, já no seu livro "A Manhã do Mundo", chamou a atenção para o que está à volta das pessoas. A título de exemplo relembro a utilização de uma música de violino para falar sobre ciganos que têm voz por via desse instrumento musical.
A propósito do panorama atual do mundo literário português Pedro Guilherme-Moreira considera que os novos autores da atualidade são melhores do que ele era com a mesma idade. Esta ideia não foi totalmente partilhada com Rui Zink que ainda assim reconhece que antigamente o panorama literário era composto por um conjunto de autores mais velhos onde uns jovens, por vezes, pretendiam entrar, enquanto que agora se passa precisamente o contrário, um autor com mais de 50 anos já é olhado de lado.
Recolhendo unanimidade junto dos três convidados está o facto de os autores deverem ser autênticos e, no seguimento dessa autenticidade, serem reconhecidos pelo seu trabalho. Reconhecem, ainda assim, que a pressão editorial para ganhar dinheiro fez proliferar jovens autores, que são conhecidos do público através de outros meios, mas que as editoras aproveitam esse protagonismo para publicar livros rentáveis mas com pouco conteúdo literário.









