sábado, 31 de maio de 2014

A poesia como forma de estar na vida



Hoje à tarde houve poesia no Livros a Oeste. A sua dimensão corpórea, o ser ou o estar poeta, e o tempo para criar poesia, foram alguns dos tópicos desenvolvidos pelos poetas convidados para este encontro:  Catarina Nunes de Almeida, Aurelino Costa e Andreia C. Faria


Numa sessão, em que muito se falou sobre a dimensão que o poeta ocupa na vida quotidiana, os convidados surpreenderam, logo ao início da sessão, o público presente com a leitura de poemas. 

Catarina Nunes de Almeida, vencedora do prémio Daniel Faria, escolheu um poema deste autor, homenageando o poeta de Baltar, que faleceu em 1999.

Já Andreia Faria selecionou um texto de Adrienne Rich, uma escolha que justificou ter sido reflexo dos seus estudos anglo-saxónicos, transmitindo-lhe a ideia da materialidade da poesia. Conforme afirmou "é uma poesia tão material como uma ombreira de uma porta". 

Aurelino Costa, poeta da Póvoa do Varzim, disse um poema do seu livro "Domingo no Corpo", em que celebra um regresso à poesia elemental, aos sabores, cheiros e sensações mais elementais*.

Numa sessão, em que os poemas e referências poéticas dominaram, falou-se na influência da geografia nas obras dos três autores presentes. Itália, e mais concretamente as cidades de Nápoles e a Luca (perto de Pisa) influenciaram e são presenças fortes nos livros de Catarina Nunes de Almeida: Metamorfose na planta dos pés" e Bailias". O primeiro surge associado ao vulcão que domina a cidade de Nápoles, com referências ao fogo e aos elementos. O segundo alude às características medievais de Luca, que a levaram a reler autores desse período, afirmando que viveu "a medievalidade ao extremo". 

O conhecimento da paisagem galega, como forma de ver com um novo olhar a paisagem do norte de Portugal, foi para Andreia C. Faria uma influência na sua escrita. Autora de poesia, onde a dimensão corpórea é evidenciada, Andreia C. Costa disse que "as mulheres escrevem com o corpo" e que o "ritmo do poema nasce do corpo". 

A poeta falou ainda da sua forte ligação  à figura maternal e ao modo como a poesia a ajudou a resolver essa relação. 

Na poesia de Aurelino Costa está a sua terra - Póvoa do Varzim, nas suas alusões ao mar, às peixeiras, "aos marinheiros, à demanda". Afirmou que especialmente as peixeiras o influenciaram desde pequeno, com os seus pés descalços em pleno inverno, o terço rezado em cantilena sussurrada ou o facto de acarinharem o barco. "Ainda vivi o ambiente piscatório de António Nobre", disse, citando, de forma intensa, o poema "Os Pescadores" deste autor. 

A poesia como forma de estar na vida foi outro dos grandes temas da conversa, que trouxe à baila a necessidade de um determinado estado de espírito para a criação poética e a diferença entre ser e estar poeta.  Aurelino Costa sintetizou desta forma a questão: "Podemos estar poetas, mas ser poetas é mais poderoso"; somos poetas "quando a poesia reside e permanece no dia-a-dia". 






Elementais é o nome dado a todo e qualquer espírito que crê-se existir na natureza